“Não quero ser mãe”: e você tem o direito de não querer!

A expectativa criada em pessoas com vulva pra ter filhos vem lá de trás, desde quando começam as fases do ciclo menstrual. Parece que, conforme o tempo vai passando, essa pressão aumenta e, se você opta pela não maternidade, é uma “afronta à ordem natural das coisas“.

Passar por nove meses de gestação sentindo as mudanças físicas e emocionais que ela causa e, ainda por cima, dedicar tempo e energia à criança nem sempre está nos planos e sonhos de alguém. Aí surge uma dúvida: tá tudo bem eu não querer ter filhos??

Essa pressão toda acontece principalmente sobre mulheres cis. Entretanto, outras pessoas com vulva, como homens trans, podem sentir preconceito caso queiram engravidar num corpo “não feminino”.

Se essa e outras questões te geram ansiedade, mesmo tendo certeza da sua escolha, este post é pra você! Continue a leitura que vamos encontrar as respostas!

Maternidade: escolha ou obrigação?

A maternidade precisa ser uma escolha, mas o que acontece é que a ideia de maternidade “obrigatória” vem muito atrelada à cultura patriarcal. Ela cria um cenário que quase obriga a mulher cis a seguir um roteiro de “nascer, crescer, casar, reproduzir e morrer” pra ser validada na sociedade.

Basicamente, ela é vista historicamente apenas por sua capacidade de procriação — o que desconsidera inclusive todas as outras formas de maternidade, como a adoção. Mesmo com o empoderamento dos nossos corpos e decisões nas últimas décadas, a figura de “procriadora” continua.

Eu ainda poderia falar por aqui como todas as estruturas e relações sociais que temos hoje favorecem os homens brancos, héteros e cis gêneros — o famoso patriarcado — reforçando ainda mais o preceito de mulher cis progenitora. Mas esse assunto merece um texto só pra ele, que ficaria bem grande.

Resumindo, você pode ver as consequências desse pensamento em comentários como “você vai ter filhos quando?”, “a mãe cuida melhor que o pai”, “pai abandonar o filho é comum” e por aí vai.

A ideia é passada de geração em geração e cria expectativas em cima dessas pessoas com útero. Mas isso não precisa ser regra nem pra mim nem pra você. A gente tem total liberdade pra escolher o que queremos, na hora que desejamos.

Então, se você quer ter filhos, tá tudo bem! E se você acha que a maternidade não é pra você, tá tudo bem também! O importante é sermos fiéis aos nossos desejos e vontades.

É normal eu não querer ser mãe?

Claro que é! A maternidade não é só um título, ela vem carregada de responsabilidades e obrigações que demandam tempo, dinheiro e estabilidade emocional, e nem todo mundo tá preparado ou deseja doar essa parte de si. Essa é uma escolha muito importante pra sua vida, por isso, você tem todo o direito de optar pelo não.

Ah, e você não tá sozinha nessa decisão! Segundo uma pesquisa feita em 2019 pela farmacêutica Bayer, apoiada pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Frebrasgo), 37% das mulheres cis em idade fértil não desejam a maternidade.

Essa escolha se deve a diversos motivos, desde a vontade de focar nas conquistas profissionais até a falta de recursos necessários por parte do estado, como creches em período integral e licença maternidade com tempo justo — cá entre nós, é essencial pra dar conta da maternidade e ainda ter tempo pra si.

Por que eu não quero ter filhos?

Seguir uma vida sem filhos é uma escolha unicamente sua. São vários os motivos pra não querer optar pela maternidade e todos eles são super válidos! Separei alguns pra te ajudar nessa fase de entendimento, mas é claro que não podemos generalizar. Cada um tem uma história de vida única e que deve ser considerada, tá?

Porque criar um filho demanda recursos e tempo que não tenho

É justo que quem opte pela maternidade possa oferecer condições de vida melhores à criança, como alimentação, educação e tempo de qualidade pra que ela possa se desenvolver plenamente. Mas sabemos que essa não é a realidade de todo mundo.

O abandono paterno, que em 2019 resultou em mais de 5,5 milhões de crianças sem nome do pai na certidão, de acordo com dados levantados pelo Censo Escolar, faz a mulher cis ter que se desdobrar em duas — ou até várias — pra ter tempo de trabalhar, cuidar do filho e, se der, cuidar de si.

Sem falar que, no nosso país, a licença — maternidade é de 120 dias pra empresas privadas, com adicional de 2 meses pra quem participa do programa Empresa Cidadã, do Governo Federal. Em muitos casos, isso não chega nem perto do tempo necessário pra se recuperar do parto e amamentar o bebê da forma que ele precisa.

Vale relembrar que o próprio Ministério da Saúde deixa claro que o leite materno deve ser ofertado até os dois anos ou mais, sendo de forma exclusiva até o sexto mês de vida da criança.

Todos esses dados fazem a escolha de não ter filhos ser uma realidade mais justa pra quem nunca teve uma gestação, e também pra quem engravida e opta por doar a criança pra famílias que possam oferecer as condições que ela precisa.

Também não podemos esquecer que essas ainda são escolhas muito mais aceitas em nossa sociedade do que o aborto, que segue ilegal e obriga pessoas que estão numa gravidez indesejada, independentemente do motivo, a passar por um procedimento nada seguro e muito condenado.

Porque a maternidade me faria abrir mão de grandes planos e sonhos

Todos nós temos sonhos e desejos que queremos realizar em nossas vidas — seja viajar pra lugares diferentes ou ter uma carreira bem sucedida, por exemplo. Todas essas vontades demandam tempo pra serem conquistadas e é natural que você queira se dedicar a elas.

Se a ideia da maternidade bate de frente com seus maiores sonhos e planos e você sente que realizá-los vai te trazer muito mais satisfação do que ter filhos, você tem total direito de não optar por ela!

Porque eu não gosto das mudanças que uma gestação traria ao meu corpo

O processo da gestação – que, como bem sabemos, dura seus longos nove meses – traz muitas mudanças ao corpo de quem tem filhos. Muitas vezes, essas modificações permanecem pelo resto da vida, afetando diretamente a relação que temos com o próprio corpo.

Sabemos bem que construir uma boa autoestima não é do dia pra noite e que passar pelo processo de aceitação do corpo pode ser muito doloroso. Por isso, é totalmente válido não querer sentir tantas mudanças físicas que a gestação traz e ter que lidar com a carga emocional de processá-las.

Porque filhos não combinam com meu estilo de vida

A maternidade é uma escolha diária e não uma vocação. Quando entendemos isso, fica muito mais fácil aceitar que o estilo de vida que levamos não comporta uma criança.

Afinal, entender que a maternidade não é pra você também é um ato de respeito a essa nova vida, que merece ter uma mãe que a queira e esteja disposta a mudar toda uma rotina pra incluir os cuidados especiais!

Por que mulheres que não querem ser mães sofrem repressão?

Lembra quando falei, lá no início, daquele roteiro de “nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer”? Não seguir esse script, infelizmente, ainda é o principal causador de repressão quando mulheres cis escolhem não ter filhos.

O tal do “instinto materno” também é muito usado pra fazer quem não quer a maternidade se sentir inferior, geralmente trazendo a ideia de que “quem não quer filhos não foi capaz de desenvolver o instinto da maternidade”. Mas não acredite nisso!

Esse “instinto” nada mais é do que dizer sim à maternidade. Não tem nada a ver com habilidades naturais e místicas que a pessoa com vulva têm de nascença ou não. É resultado de um trabalho diário com erros e acertos que não precisa ser parte da sua vida se você não quiser.

Eu queria muito que essa pressão não existisse. Se você opta pela não maternidade, poder expressar essa vontade deve ser algo carregado de liberdade ao invés de culpa. Mas sabemos que ainda não estamos lá e temos um longo caminho pela frente.

O importante é que você seja fiel ao que deseja. No fim, só você pode viver sua vida e lidar com suas escolhas. Então que essas decisões sejam verdadeiramente suas e te tragam muita satisfação!

Aliás, se a sua escolha de vida envolve não ter filhos, aproveite para conferir nosso post sobre métodos contraceptivos. Conheça as formas mais eficazes de aproveitar os momentos de prazer sem neura!

 

Referências:

Pesquisa Bayer: https://www.hypeness.com.br/2019/09/37-das-brasileiras-nao-quer-ter-filhos-aponta-pesquisa-2/

Dados sobre licença-maternidade: https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/orientacao-tributaria/isencoes/programa-empresa-cidada/orientacoes

Dados do Censo Escolar sobre certidão sem nome do pai: https://ibdfam.org.br/noticias/7024/Paternidade+respons%C3%A1vel:+mais+de+5,5+milh%C3%B5es+de+crian%C3%A

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