Banner com homem fazendo sinal der positivo e em primeiro plano vários cacos voando

Masculinidade frágil: cuidado, vai quebrar! 

Falar de masculinidade frágil pode nos render uma série de situações constrangedoras e aquele sentimento de vergonha alheia, capaz de fazer qualquer um querer se esconder na primeira moita que encontrar.

Ocasiões vexatórias em que homens utilizam de seu gênero para oprimir mulheres são expressões diretas da famigerada fragilidade que existem em ser homem.

E você nem precisa ir tão longe para buscar alguém que tenha passado por uma experiência horrível dessas, basta perguntar para qualquer mulher à sua volta, aliás, quem sabe uma delas esteja lendo este post agora.

Mas, de onde vem essa bendita masculinidade frágil? É isso que vou tentar clarificar para você no post de hoje. Então, já vai se aconchegando aí, porque o papo vai te levar a um misto de emoções e reflexões profundas. Vamos lá?!

Afinal, o que é masculinidade frágil?

Já começamos com uma grande questão. A ideia de masculinidade que temos atualmente se baseia em uma virilidade que só encontra legitimação a partir da aplicação de valores de poder, força, arrogância, opressão e dominação.

Mas isso pode estar soando ultrapassado para você, e de fato é mesmo. Se você for homem (cisgênero principalmente), lembre-se da sua infância, talvez não precise forçar a memória para chegar à conclusão de que muitos desses valores já te eram ensinados logo cedo pelo seu pai e, possivelmente, replicados irrefletidamente pela sua mãe.

Não conseguiu pensar em nada? Talvez eu possa ajudar. Lembra das vezes em que você se machucou e seus pais disseram: “engole o choro, porque homem não chora”? Ou das vezes em que você foi repreendido por gostar de algo correspondente socialmente ao ideário feminino? Lembra das vezes que foi chamado ou chamou alguém de “viadinho”, como se ser gay fosse algo extremamente nocivo e ruim?

E das vezes em que sua irmã foi colocada a fazer todas as tarefas domésticas de casa, enquanto você ficou sentado em frente à TV, porque “fazer uma faxina não é coisa de homem”, eles disseram. Se lembra da última vez que fez a sua própria comida sem esperar que alguma “mulher da casa” a fizesse? Quando foi a última vez que lavou louça?

Tudo isso corresponde à construção social de uma masculinidade frágil e certamente foram essenciais para a construção de homens alienados, opressores e sem qualquer educação emocional.

A verdade é uma só, a masculinidade frágil não liberta ninguém, ela oprime mulheres todos os dias e tira a possibilidade dos homens de serem crianças mais leves, aproximar-se da feminilidade por medo de julgamentos e explorarem as suas sexualidades por receio de serem “menos homens”.

É uma prospecção social que dita para todos do sexo masculino que eles precisam se construir fortes, imponentes, assustadores, poderoses, rústicos, aventureiros, intimidores, atléticos, provedores, líderes, ricos, sexualmente ativos e viris.

E quais as consequências disso? Homens com lacunas emocionais que tentam afirmar a todo momento o papel de “macho alfa” – nunca sentir, sempre ordenar. E claro, a frustração e opressão de si mesmos e daqueles com os quais se relacionam acabam sendo potencializadas à medida que esse tipo de masculinidade passa por manutenção diária.

A masculinidade frágil e a masculinidade hegemônica: qual a relação?

É certo que sempre ouvimos falar da masculinidade do ponto de vista da opressão de gênero, logo está mais do que na hora de falarmos sobre o principal fator que propulsionou o aparecimento desta performance de masculinidade tão vulnerável.

Babaquice? Egocentrismo? Privilégios? Também, mas não só. Não podemos apagar da história o irrevogável: a masculinidade frágil é determinada por um conjunto de condutas sociais de repressão emocional e afastamento de tudo que lembra o feminino. Mas, por quê?

Bem, não tenho uma resposta pontual e definitiva para essa questão levantada. Mas podemos supor um grande porquê: a masculinidade hegemônica. Segundo a cientista social Raewyn Connell, o conceito de masculinidade hegemônica pode ser compreendido como uma série de práticas que, em conjunto, legitimam e dão seguimento ao domínio do masculino sobre o feminino.

Banner com fazendo sinal de negativo e vários cacos de vidro espalhados, e ao fundo escritas sobre masculinidade hegemônica e masculinidade frágil

Nesse sentido, a masculinidade frágil seria respaldada na dominação de gênero, que por via de regra buscaria afastar a todo custo o “homem de verdade” de marcas identitárias do gênero feminino.

Não é à toa que os homens são muitas vezes repreendidos por outros homens quando demonstram algum tipo de sentimento em público. Ou que muitos homens não são capazes de elogiar ou cumprimentar com um beijo no rosto seus amigos por medo de represálias de terceiros, no máximo, um “abraço hétero”.

Cria-se assim um abismo entre ser homem e ser mulher, como se os indivíduos de ambos grupos fossem totalmente diferentes e passíveis de uma hierarquização sexista, afinal, para existir quem domine, é preciso existir dominada.

Principais consequências da nociva performance de gênero

Bem, muitas das consequências desse tipo de masculinidade vocês já conhecem e quem sabe já viveram na pele. Seja no ambiente familiar, de trabalho, em um relacionamento afetivo etc.

A verdade é que a expressão da masculinidade frágil não vem com um aviso de dia e hora, do contrário, a gente correria pra longe, não é mesmo? Então, que tal conhecermos algumas consequências que assolam os próprios homens? Confira aí:

Engole o choro agora!

Homens restritos emocionalmente, que não se permitem sentir e/ou expressar as suas emoções, porque foram ensinados desde sempre que “homem de verdade” é incapaz de chorar, principalmente perto de alguém, está aí um subproduto da fragilidade masculina.

E talvez você esteja pensando que a expressão emocional é pura perda de tempo. Mas se disséssemos que 76% dos suicídios do Brasil são cometidos por homens, segundo a OMS, você mudaria de ideia?! Se considerarmos que falta para muitos uma educação emocional, como podemos esperar que peçam ajuda em momentos de vulnerabilidade?

Então, se me permite um conselho e está disposto a fazer algo por você mesmo, pode começar esse processo de transgressão: chorando. Chore por você, com direito a se ancorar na parede e ir caindo aos poucos igual cena de novela mexicana. Liberte-se de emoções cristalizadas é um passo enorme em direção a diferentes formas de ser.

Você não é um homem de verdade!

Definitivamente, o que é ser homem de verdade? Essa é aquela típica frase que decorre da construção do conceito de másculo e que faz todo homem se perguntar: será que existo ou sou um robô?

Brincadeiras à parte, sabemos bem que o julgamento por trás dessa afirmação esconde uma série de condutas e expectativas em cima do gênero masculino, que uma vez frustradas, acabam por gerar a negação de gênero.

Como vimos, o ser homem, de acordo com a masculinidade hegemônica, requer que sejamos menos mulheres. Logo, todas as práticas que se afastam da identidade feminina precisam ser executadas como se ser homem tóxico fosse uma ideia pressuposta e precedida de nossa existência.

Em outras palavras, no ideário social, “ser homem” já está predefinido antes do nosso nascimento, cabendo a nós mesmos seguir conforme o script. Mas será mesmo? Será que em pleno século XXI não cabem outras construções de masculinidades mais saudáveis e menos engessadas?

Pare de viadagem

Na masculinidade frágil, ser homem e ser gay são coisas totalmente distintas. Isso porque se construiu que sentir atração por outros homens é algo do universo feminino. Homens de verdade são moldados para gostarem de mulheres.

Consequentemente, amar outro homem é algo que extrapola as convenções e papéis de gênero, o que leva sexualidades distoantes da heterosexual a serem marginalizadas e oprimidas.

Mas, temos um segredo para te contar: ser gay não te faz menos homem, porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aliás, já explicamos por aqui que identidade de gênero é diferente de orientação sexual, vale a pena conferir.

Banner com imagem de rapaz ao centro e dos dois lados escritas sobre identidade gênero e que ser gay não ninguém menos homem

Então, permita-se amar outros homens, porque no final não existe problema algum em amar, o problema está em quem não consegue enxergar que o amor extrapola os limites de convenções de gênero, ultrapassadas e desumanizadas. E,se ser homem de verdade infere que não possamos amar quem quer que seja, melhor mesmo é ser robô.

Se cuidar é coisa de mulherzinha

Em 2020, o Instituto Nacional de Câncer registrou mais de 65.000 casos de câncer de próstata no Brasil. Adivinha qual é a segunda maior causa de mortes de homens no país. Isso mesmo: câncer de próstata.

Homens não se cuidam. Homens estão doentes. Homens são vulneráveis. A grande questão é que o exame de próstata é visto como algo absurdo por muitos homens, até mesmo como uma forma deslegitimar a masculinidade.

Na verdade, é a masculinidade frágil que deslegitima dia após dia a saúde e existência de muitos. Rotinas básicas de autocuidado são deixadas de lado, porque muito lembram condutas femininas e homossexuais.

Do homem rústico e sem higiene básica e íntima ao homem sem qualquer resquício de amor próprio, eis aí o desnecessário atestado da masculinidade.

Seja o macho alfa na cama!

E para fechar com chave de ouro, outro subproduto da masculinidade frágil tinha que ser homens que acreditam que toda a relação sexual gira em torno de seu pênis. Eu conto ou vocês contam?

Podemos encarar a hipervalorização da performance sexual masculina sobre dois viés distintos, mas que se tocam. Primeiro, os homens são educados desde pequenos a serem pegadores e sexualmente ativos. Brochar na hora do sexo é terminalmente proibido.

Em segundo plano, temos um grande problema. A cobrança exacerbada de uma performance sexual viril, por assim dizer, culmina em parceiros que só pensam na própria satisfação, que não ouvem as necessidades e desejos de suas parcerias e que acreditam que o sexo gira em torno apenas da penetração.

É triste, porque essa masculinidade acaba por propulsionar uma repressão multifacetada dos indivíduos. E quando o assunto gira em torno de relações sexuais, estamos falando desde uma relação falocentrada até uma relação de possíveis agressões sexuais como forma de reafirmar o status quo de macho alfa.

Bem, talvez a grande subversão da masculinidade frágil comece pela nossa percepção de nós mesmos no mundo. Em seguida, livrar-se de amarras e pressões sociais não será nada fácil, mas necessário, e talvez a sua maior atitude de autocuidado e autoamor. Então, para te ajudar nesta empreitada, fica a grande questão: que tipo de homem você está construindo hoje?

Quanto for capaz de responder a essa pergunta, será capaz de entender que se livrar de uma masculinidade tóxica é uma desconstrução e escolha diária. Até a próxima!

Um comentário sobre “Masculinidade frágil: cuidado, vai quebrar! 

  1. Geraldo disse:

    Na verdade, Independente do Gênero, sempre o Capitalismo e o Socialismo, apregoam o dominador e o dominado! Mulheres já ouviram “histeria” (falar bravo) de um colega, comigo; contrário também: um colega ouviu uma colega, incisiva, pragmática comigo. O grande desafio é entenderem a diferença de Autoridade e Liderança. O machista “pira” ficar excitado por homem cis e, argumenta que penetra anus masculino, porque é macho alfa!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dona coelha e os cookies: usamos cookies para melhorar a experiência no site. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de Privacidade.