Mulher com mão na boca indicando silêncio

Manterrupting e mansplaining: espere a sua vez de falar!

É sexta-feira, você saiu do expediente e decidiu tomar uma cerveja com os colegas de trabalho, como já é o esperado, após um dia cheio.

Tudo parecia perfeito, até que todos começam uma conversa animada na mesa, mas você percebe que todas as vezes que tenta manifestar uma opinião sobre o assunto em questão, é rapidamente interrompida pela expressão de opinião de um colega de trabalho, um homem, claro.

E como se não bastasse a intromissão, o alecrim do pântano (e/ou esquerdomacho, como vimos em outra ocasião) ainda faz questão de explicar com outras palavras exatamente o que você já estava comunicando. Abstraia o local e perceberá que cenas como essas são comuns em praticamente todos ambientes e ocasiões.

Infelizmente, muitas mulheres vêm sendo interrompidas e silenciadas por anos, como a história e a experiência diária não nos deixa mentir. Mas, não hoje! Hoje o papo é sério, precisamos conversar sobre manterrupting e mansplaining.

Afinal o que é manterrupting e mansplaining?

Calma, talvez você não tenha familiaridade com os termos, mas certamente já passou por situações constrangedoras como a descrita acima. Em linhas gerais, o manterrupting diz respeito à ação de interrupção da fala de uma mulher por um homem, de forma a impossibilitar que ela possa expressar um argumento, opinião ou pensamento.

Ao lado da prática do manterrupting, temos ainda o mansplaining, que por sua vez diz respeito a ocasiões em que um homem explica a uma mulher coisas que ela já sabe, seja devido à obviedade ou, ainda, a explanação vem sobre um assunto que ela domina muito bem.

Mulher fazendo sinal de pare com as duas mãos e ao lado escritas sobre mansplaining e manterrupting

Aliás, o termo foi amplamente difundido pela obra Os homens explicam tudo pra mim, de Rebecca Solnit, na qual a escritora relata uma ocasião em que um homem buscou explicar sobre uma obra que ela havia escrito, pode uma coisa dessa?

Já aqui, os termos ganharam maior expressão quando a famosa youtuber Kéfera Buchmann discutiu, no programa “Encontro” da Fátima Bernardes, com um convidado, o qual explicava às mulheres sobre o feminismo. O episódio foi explanado pelo Brasil inteiro, só quem viveu sabe.

Fora os grandes casos midiáticos, você certamente já deve ter sido interrompida por um homem para ouvir obviedades ou ainda para ouvir a verborragia frenética sobre uma pauta que você é expert.

Por um lado, muitos podem achar inofensiva a intromissão em uma roda de bar, mas te garantimos que as consequências extrapolam um momento de embriaguez. Se voltarmos ao passado, perceberemos que nós mulheres sofremos com a opressão de gênero em todos os espaços. De falta de poder e participação civil a bases salariais desiguais, muitas são as consequências dessa opressão nada sutil.

Em se falar em sutileza, precisamos dizer que ela mora nos detalhes. Está dentro de casa quando a mãe não possui a mesma autoridade que o pai e sua palavra pode ser revogada a qualquer momento pela palavra do esposo. Está dentro dos ambientes de negócios, quando as mulheres precisam atestar a todo momento o seu valor e a importância de serem respeitadas.

Está na cadeira de um curso de faculdade quando uma mulher, mesmo tendo grande conhecimento sobre um assunto, tem que ouvir o macho palestrinha explicar aquilo que ela já sabe muito bem.

Mas, a grande questão é: se o manterrupting e mansplaining são tão nocivos, por que ainda acontecem?

Analisando as causas

Bem, nem precisamos prospectar causas mirabolantes para entender o que está por trás desses dois fenômenos. A verdade é uma só, o mansplaining e o manterrupting ocorrem porque no ideário social patriarcal as mulheres são vistas como inferiores aos homens.

Há ainda nesta imagem social uma gama de preconceitos que buscamos quebrar com o decorrer do tempo, como a ideia de que as mulheres devem ser subservientes e se restringir ao espaço doméstico, enquanto os homens são os grandes líderes.

O ponto é que esses preconceitos ultrapassados foram consolidados lá na Grécia antiga, quando as mulheres eram subjugadas ao lar e somente aos homens era dado o direito de participação na vida pública.

Lidas como frágeis, na contraposição dos homens guerreiros e fortes, as mulheres eram apenas vistas com fins de procriação. Isso tudo nos sugere que os homens nunca foram educados a ouvirem as mulheres, mas somente a falar e ordenar.

Embora essa visão seja obsoleta, parece que a nossa sociedade progride em muitos âmbitos, mas sempre apresenta um grande atraso nas questões de gênero. Até porque a conquista do voto da mulher no Brasil, por exemplo, só ocorreu em 1932, ou seja, a máxima expressão de cidadania nos era negada até pouco tempo atrás.

Posto isso, não é de nos espantar que os homens não estejam acostumados ou propensos a ouvir a opinião e argumentos das mulheres na vida pública, mas sinto em dizer que já não estamos mais propensas a nos calarmos.

Percebemos assim que a hierarquização de gênero corroborou e corrobora para a perpetuação da masculinidade frágil e, consequentemente, para a opressão de tudo que está ligado ao feminino.

Se uma mulher fala, um homem precisa falar mais alto; se uma mulher argumenta, um homem precisa argumentar mais (não necessariamente melhor); se uma mulher adquire maior desenvolvimento intelectual, sempre será menor do que a intelectualidade de um homem – eis a balança desproporcional da hegemonia masculina.

O que aconteceria se as mulheres interrompessem os homens

Em uma pesquisa feita por Kieran Snyder apresentada na revista Fortune, após a observação de reuniões com participações em número equivalente de homens e mulheres, foi constatado que praticamente ⅔ das interrupções foi feita por homens sobre mulheres e 90% das mulheres que fizeram algum tipo de interrupção apontaram para suas iguais.

Isso nos diz que mulheres não interrompem homens, mas por quê? Ao invés de tentarmos responder a essa pergunta, vamos fazer o seguinte, o que aconteceria se mulheres interrompessem os homens e reivindicassem o seu momento de fala?

Bem, em tal realidade, podemos pensar que muitas de nós seriam taxadas de agressivas, mandonas e impertinentes. Isso porque a reivindicação de nosso momento de fala é uma forma de demonstrar que podemos sim ter participação em debates, assuntos profundos, ou conversas banais.

É demonstrar que mulheres possuem propriedade para ocupar espaços públicos, mas não só isso. Segundo Snyder, o resultado da pesquisa sugere que para que mulheres possam subir de cargos, precisam aprender a interromper, mesmo que líderes de peso sejam pejorativamente taxadas de desagradáveis.

Isso nos parece fazer sentido, sobretudo em áreas dominadas por homens, nas quais o mansplaining é recorrente. O egocentrismo e a masculinidade hegemônica são o suficiente para colocarem os homens em posições de não passividade às ordens vindas de uma mulher.

Certamente, o ideal seria diversos movimentos em direção à consciência de igualdade de gêneros. Enquanto isso caminha em passos curtos, infelizmente, é preciso que mulheres interrompam os homens para afirmarem os seus posicionamentos. E assim, mandonas não, líderes!

Como alcançar a consciência de igualdade de gênero

Bem, como vimos, em um cenário ideal, a forma mais contundente de evitar os fenômenos manterrupting e mansplaining é a partir da consciência de que mulheres não são inferiores aos homens e devem ser ouvidas. Vejamos o que podemos fazer para alcançar a consciência da igualdade de gênero:

Reconhecer atitudes sexistas

Não tem jeito, é preciso que reconheçamos as atitudes sexistas que temos ao longo dos dias. A própria socialização se baseia em um conjunto de ações em que os papéis sociais são consolidados a partir do recorte de gênero, no que se segue: mulheres devem ser mães; mulheres precisam cuidar dos afazeres da casa; mulheres não devem ocupar cargos eminentemente “masculinos”; mulheres devem ser passivas aos homens; e blá blá blá.

Pessoa com mão no rosto indicando indignação e lado escritas sobre reconhecer práticas sexistas

Ao reconhecermos as práticas sexistas que permeiam a nossa existência, seremos capazes de entender que ser homem não deve ser um determinante para punir, oprimir e inferiorizar mulheres.

Estar mais perto de múltiplas representações de masculinidades

A performance da masculinidade tóxica certamente está embasada na consolidação de atitudes e pensamentos sexistas. E para romper com essa visão unilateral de masculinidade é preciso que os homens estejam mais expostos a diferentes formas de ser homem que fogem da regra do ser opressor, másculo, insensível e agressivo.

Ao entenderem que é permitido e seguro extrapolar as fronteiras da virilidade e se aproximarem mais do feminino, estarão prontos à compreensão de que a hierarquização de gênero é nociva para ambos.

Aprender a ouvir

Se considerarmos as características do manterrupting e mansplaining, perceberemos que tudo converge a uma falta de empatia ao interlocutor da conversa. Falar certamente é mais fácil que escutar, mas temos que ter em mente que estipulamos valores errados a esses dois verbos.

Ao colocarmos o ato de falar como uma representação da ação e o ato de ouvir mais próximo da passividade, esquecemos totalmente que o ouvir requer muitas vezes a sutil percepção do outro – ao qual consideramos como diferente – como um igual e, portanto, como alguém digno de ser ouvido.

Quando os homens falam freneticamente e nos interrompem, além de não serem capazes de nos ouvir, não são capazes de nos perceber.

Por isso, tornar os ouvidos mais atentos e se calar em momentos em que a sua voz não é necessária, deixando que uma mulher se expresse, é uma maneira legítima e humana de transgredir as falhas noções de gênero. Em outras palavras: espere a sua vez de falar!

É isso, meus amores, chegamos ao fim de mais um post e hoje a desconstrução foi precisa. Esperamos que tenham gostado do texto e que o conteúdo tenha sido ao menos útil para a sua reflexão e posicionamento. Conta pra gente o que achou aqui nos comentários!

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