Todo 31 de julho a mesma frase volta a circular: “mais da metade das mulheres brasileiras não chega ao orgasmo”. Eu já vi esse número em jornal grande, em post de sex shop, em legenda de influenciador. Sempre atribuído à USP, sempre sem link para o estudo.
Fui atrás. E não achei a fonte primária. O que eu achei foi uma pilha de pesquisa internacional muito boa, com amostra grande e método aberto, que conta uma história parecida e ao mesmo tempo bem mais interessante do que a versão simplificada que a gente repete todo ano.
Então bora fazer o que ninguém faz nessa data: olhar os números de verdade. Neste texto você vai entender de onde vem o Dia do Orgasmo, qual é o tamanho real do abismo do orgasmo, por que ele quase não tem a ver com biologia, e em que ponto a dificuldade deixa de ser roteiro e vira questão de saúde.
Por que 31 de julho é o Dia do Orgasmo
A data nasceu em 1999, na Inglaterra, criada por lojas de produtos eróticos. Começou como jogada comercial, sem nenhum romantismo. Eu acho importante dizer isso com todas as letras, porque tem muito conteúdo por aí tentando dar uma origem nobre para uma coisa que era, na origem, promoção de loja.
Só que a data pegou. E pegou porque ela resolve um problema real: dá licença social para falar de prazer. Uma vez por ano, jornal grande publica matéria sobre orgasmo feminino, gente manda link para a amiga, casal comenta o assunto no jantar. Para quem trabalha com educação sexual, isso vale mais do que a origem comercial desabona.
Existe também um Dia Mundial do Orgasmo em 21 de dezembro, ligado ao solstício e a um movimento chamado Global Orgasm. São datas diferentes, com origens diferentes, e as duas circulam. No Brasil, a que pegou foi 31 de julho.
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Vamos ao que interessa. O tal “55% das mulheres brasileiras não chegam ao orgasmo, segundo a USP” aparece em dezenas de páginas, sempre sem referência. Não consegui localizar o estudo original, o ano, a amostra nem o método. Isso não quer dizer que ele não exista. Quer dizer que, do jeito que circula hoje, ele não é verificável.
E eu prefiro te dar um número menor e checável do que um número redondo e órfão. Porque quando a fonte some, a informação vira folclore, e folclore sobre corpo de mulher já é o que não falta.
Regra de bolso: se um dado sobre o seu corpo não vem com fonte que você consiga abrir e ler, trate como boato até prova em contrário. Vale para mim também.
O abismo do orgasmo: o que a pesquisa realmente mostra
O fenômeno tem nome na literatura científica: orgasm gap, ou abismo do orgasmo. E ele é bem documentado.
O estudo mais citado analisou 52.588 adultos nos Estados Unidos e perguntou com que frequência cada pessoa chega ao orgasmo quando tem intimidade sexual. Homens heterossexuais: 95% dizem que quase sempre ou sempre. Mulheres heterossexuais: 65%[1]. Trinta pontos de diferença.
Outro levantamento, com 2.850 pessoas solteiras, encontrou média de 85,1% para homens e 62,9% para mulheres[2]. E um terceiro, com 24.752 adultos de 18 a 100 anos, mostrou que a distância se mantém em todas as faixas etárias: homens entre 70% e 85%, mulheres entre 46% e 58%[3].
Repara numa coisa: a diferença não some com a idade. Ninguém “aprende sozinha com o tempo”. Isso já derruba a explicação preguiçosa de que é só falta de maturidade sexual.
O abismo não é entre homens e mulheres
Aqui está o dado que muda tudo, e que quase nenhuma matéria de 31 de julho conta.
No mesmo estudo com 52 mil pessoas, mulheres lésbicas relataram 86% de frequência de orgasmo. Mulheres heterossexuais, 65%[1]. Em outro levantamento, lésbicas 74,7% contra 61,6% das heterossexuais, enquanto entre homens a orientação sexual não mudou praticamente nada[2].
Ou seja: o corpo é o mesmo. A anatomia é a mesma. O que muda é o que acontece na cama.
Se fosse limitação biológica do corpo feminino, mulheres com mulheres teriam o mesmo resultado que mulheres com homens. Não têm. O abismo, então, não é entre homens e mulheres. É entre sexo heterossexual e todo o resto. E isso é roteiro, não anatomia.
A peça que falta no roteiro tem nome: clitóris
Uma pesquisa com amostra probabilística de 1.055 mulheres norte-americanas de 18 a 94 anos perguntou de forma bem direta o que elas precisam para chegar lá. Só 18,4% disseram que a penetração sozinha basta. Para 36,6%, a estimulação do clitóris é necessária para o orgasmo durante a penetração. E outras 36% disseram que, mesmo não sendo necessária, o orgasmo fica melhor com ela[4].
Soma aí: mais de 70% das mulheres precisam ou preferem estímulo clitoriano. E o roteiro sexual heterossexual padrão, aquele que a gente aprendeu vendo filme, é organizado em torno da penetração.
Não é que o corpo dela falha. É que o roteiro não passa pelo lugar certo.
A pergunta mal feita esconde o problema
Tem um detalhe metodológico que eu acho fascinante. Um estudo com 1.478 mulheres e 1.569 homens testou o efeito de como a pergunta é formulada. Quando perguntaram sobre orgasmo em penetração com estímulo clitoriano junto, a resposta das mulheres ficou entre 51% e 60%. Quando perguntaram sobre penetração sem nenhum estímulo adicional, caiu para 21% a 30%[5].
Nos dois cenários os homens superestimaram a frequência de orgasmo das parceiras. E não é só nessa pesquisa: em outro estudo, homens avaliaram o abismo como menor do que as mulheres avaliaram[6].
Então parte do problema é que muita gente acha que já resolveu.
A prova de que dá para mudar o roteiro
Essa é a parte que me deixou animada quando li.
Pesquisadoras montaram um experimento com mulheres bissexuais e pansexuais. Apresentaram cenários hipotéticos e mediram quanta expectativa de orgasmo cada cenário gerava. Resultado do primeiro estudo, com 457 participantes: imaginar sexo com uma mulher gerava expectativa de orgasmo bem maior do que imaginar sexo com um homem, o que bate com o abismo já conhecido.
Aí veio o segundo estudo, com 362 participantes. Elas mudaram uma coisa só no cenário com parceiro homem: especificaram que haveria estímulo clitoriano suficiente. A expectativa de orgasmo subiu para o mesmo patamar do cenário com parceira mulher[7].
Olha só o que isso significa: bastou mudar uma linha do roteiro para o abismo fechar. Não foi terapia, não foi anos de autoconhecimento, não foi trocar de parceiro. Foi incluir o clitóris na conta.
Eu vejo isso com muita frequência no consultório e nas mensagens que a gente recebe. A mulher chega achando que tem alguma coisa quebrada nela. Quase sempre não tem. Tem um roteiro que nunca foi revisado.
O que a evidência mostra que funciona
Um trabalho apresentado no Journal of Sexual Medicine analisou o que aconteceu no último encontro sexual de 1.568 pessoas e calculou quais comportamentos mais previam o orgasmo delas. Os mais fortes foram estimulação manual dos genitais, uso de brinquedo, sexo oral recebido e beijo profundo[8].
Sobre brinquedo, especificamente: um estudo com amostra nacional de 2.056 mulheres nos Estados Unidos encontrou que quem usava vibrador pontuava melhor em praticamente todos os domínios de função sexual, incluindo desejo, excitação, lubrificação e orgasmo. E 71,5% nunca tiveram nenhum efeito indesejado[9].
Tem ainda um achado que eu adoro, de um estudo qualitativo com 15 mulheres que não chegam ao orgasmo só com penetração: 14 delas aprenderam a ter orgasmo na masturbação antes de conseguirem o primeiro orgasmo na relação[10]. A ordem importa. Primeiro você descobre o que funciona, depois você consegue pedir.
E nenhuma das 15 tinha a mesma técnica preferida da outra[10]. Não existe manual universal. Existe o seu.
O que a gente vê aqui dentro da Dona Coelha
A gente faz uma pesquisa própria com a nossa comunidade, a DR do Bem. A última rodada, de outubro de 2024, ouviu 680 pessoas.
Quando a gente pergunta o que é mais importante em um brinquedo, quase metade das respostas de quem já tem um (49,5%) menciona orgasmo de forma espontânea: “me fazer ter mais orgasmos”, “me fazer ter orgasmos melhores”. Não é uma opção que a gente empurrou no meio de outras. É o que aparece quando a pessoa escolhe o que importa.
E numa pergunta totalmente aberta sobre a maior reclamação da vida sexual, 5,4% escreveram, com as próprias palavras, alguma versão de “não consigo chegar lá”. Frases reais da pesquisa: “não chegar ao orgasmo só com a penetração”, “não gozar com o parceiro”, “às vezes demoro a chegar no orgasmo e às vezes nem chego”. Num campo em branco, sem alternativa sugerida, esse tema aparecer em uma a cada vinte respostas diz muito.
Uma observação honesta sobre esses números: eles vêm da nossa base de clientes e seguidores, então não representam a mulher brasileira em geral. Representam quem já se interessa pelo assunto. Isso torna o dado mais útil para entender o nosso público, e menos útil para generalizar. Achei melhor te contar isso do que fingir que é um censo.
Quando não é roteiro, e sim saúde
Até aqui eu falei de roteiro sexual, porque é onde está a maior parte do problema. Mas não é onde está tudo, e ignorar isso seria irresponsável da minha parte.
Vale procurar profissional quando:
- Você nunca teve orgasmo, nem sozinha, nem acompanhada, em nenhuma circunstância
- Você tinha orgasmos e parou de ter, sem mudança óbvia de contexto
- Sente dor durante a penetração ou na região pélvica
- Começou a tomar algum medicamento e notou a diferença depois (antidepressivos da classe dos ISRS e alguns anticoncepcionais podem afetar resposta sexual)
- Passou por parto, cirurgia pélvica, menopausa ou tratamento oncológico
- A dificuldade vem acompanhada de angústia, e não só de curiosidade
Nesses casos, quem ajuda é ginecologista, fisioterapeuta pélvica, sexóloga ou psicóloga, dependendo do quadro. Toma cuidado com quem promete resolver anorgasmia com um produto, seja ele qual for. Não é assim que funciona, e eu vendo brinquedo para viver.
Perguntas frequentes sobre o Dia do Orgasmo
Por que 31 de julho é o Dia do Orgasmo?
A data foi criada em 1999, na Inglaterra, por lojas de produtos eróticos, com o objetivo de estimular o debate sobre prazer e vender mais. Ela se espalhou e hoje funciona como marco de educação sexual em vários países, inclusive no Brasil.
Qual a diferença entre Dia do Orgasmo e Dia Mundial do Orgasmo?
O Dia do Orgasmo é 31 de julho, de origem comercial britânica. O Dia Mundial do Orgasmo é 21 de dezembro, ligado ao solstício e ao movimento Global Orgasm, criado com viés de ativismo pela paz. São datas distintas e as duas circulam.
Qual é o tamanho real do abismo do orgasmo?
Nos maiores levantamentos disponíveis, homens heterossexuais relatam entre 85% e 95% de frequência de orgasmo em sexo com parceria, e mulheres heterossexuais entre 62% e 65%. A diferença fica entre 20 e 30 pontos percentuais e se mantém em todas as faixas etárias.
É verdade que 55% das mulheres brasileiras não chegam ao orgasmo?
Esse número circula muito, quase sempre atribuído à USP e quase sempre sem link para o estudo. Não localizei a fonte primária. Existe um abismo do orgasmo bem documentado na literatura internacional, mas eu não recomendaria repetir esse percentual específico sem a referência.
A dificuldade de chegar ao orgasmo é biológica?
Na maioria dos casos, não. Mulheres lésbicas relatam frequência de orgasmo muito próxima à dos homens, com o mesmo corpo e a mesma anatomia. A diferença está no roteiro sexual, principalmente na presença ou ausência de estímulo clitoriano.
Preciso de brinquedo para ter orgasmo?
Não. Brinquedo é um caminho entre vários, e a pesquisa mostra que estimulação manual, sexo oral e beijo profundo também estão fortemente associados ao orgasmo feminino. O que a evidência aponta é que o estímulo clitoriano precisa estar presente de alguma forma.
O melhor jeito de celebrar essa data é conversar sobre ela
Se você chegou até aqui e ficou com a sensação de que tem alguma coisa faltando no seu roteiro, tá tudo certo. Essa é a sensação correta, e ela é o começo de qualquer mudança.
O abismo do orgasmo não é uma falha do seu corpo. É uma falha de educação sexual que virou hábito coletivo, e hábito coletivo se muda conversando. Com quem divide a cama com você, com uma amiga, com uma profissional. Uma data comercial inventada por sex shop inglês em 1999 pode ser um começo tão bom quanto qualquer outro, né?
Vale dizer que aqui na Dona Coelha a gente comemora o dia do orgasmo todos os dias, mas tem uma seleção especial do dia do orgasmo aqui que vale para o mês inteiro.
Me conta aqui nos comentários: qual desses dados mais te surpreendeu? E tem alguma coisa que você sempre quis perguntar sobre orgasmo e nunca teve onde?
Referências
- Frederick, D. A., St. John, H. K., Garcia, J. R., & Lloyd, E. A. (2018). Differences in Orgasm Frequency Among Gay, Lesbian, Bisexual, and Heterosexual Men and Women in a U.S. National Sample. Archives of Sexual Behavior, 47(1), 273–288. doi.org/10.1007/s10508-017-0939-z
- Garcia, J. R., Lloyd, E. A., Wallen, K., & Fisher, H. E. (2014). Variation in Orgasm Occurrence by Sexual Orientation in a Sample of U.S. Singles. The Journal of Sexual Medicine, 11(11), 2645–2652. doi.org/10.1111/jsm.12669
- Gesselman, A. N. et al. (2024). The lifelong orgasm gap: exploring age’s impact on orgasm rates. Sexual Medicine. Resumo
- Herbenick, D., Fu, T.-C., Arter, J., Sanders, S. A., & Dodge, B. (2018). Women’s Experiences With Genital Touching, Sexual Pleasure, and Orgasm: Results From a U.S. Probability Sample of Women Ages 18 to 94. Journal of Sex & Marital Therapy, 44(2), 201–212. doi.org/10.1080/0092623X.2017.1346530
- Shirazi, T., Renfro, K. J., Lloyd, E., & Wallen, K. (2018). Women’s Experiences of Orgasm During Intercourse: Question Semantics Affect Women’s Reports and Men’s Estimates of Orgasm Occurrence. Archives of Sexual Behavior, 47(3), 605–613. doi.org/10.1007/s10508-017-1102-6
- Wetzel, G. M., Sanchez, D. T., & Cortez, T. (2022). Heterosexual Young Adults’ Experience With and Perceptions of the Orgasm Gap: A Mixed Methods Approach. Psychology of Women Quarterly, 46(2). doi.org/10.1177/03616843221076410
- Wetzel, G. M. et al. (2025). An Experimental Investigation of Sexual Scripts by Partner Gender: Anticipated Clitoral Stimulation and Partner Orgasm Pursuit Shape Women’s Orgasm Expectations. Archives of Sexual Behavior. Resumo
- Feldman, R. et al. (2026). The Orgasm Golden Quartet: Which Behaviors Best Predict Orgasm During Last Sexual Event Across Sexual Orientations? The Journal of Sexual Medicine. Resumo
- Herbenick, D., Reece, M., Sanders, S., Dodge, B., Ghassemi, A., & Fortenberry, J. D. (2009). Prevalence and characteristics of vibrator use by women in the United States: results from a nationally representative study. The Journal of Sexual Medicine, 6(7), 1857–1866. doi.org/10.1111/j.1743-6109.2009.01318.x
- Towne, A. (2019). Clitoral stimulation during penile-vaginal intercourse: A phenomenological study exploring sexual experiences in support of female orgasm. The Canadian Journal of Human Sexuality, 28(1), 68–80. doi.org/10.3138/cjhs.2018-0022
- Dona Coelha. (2024). DR do Bem 2024. Pesquisa própria com 680 respondentes, outubro de 2024.

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